Luiz Sôlha

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“Sôlha, um labirinto de espelhamentos”.

Numa vertigem, exausto depois de discutir horas a fio o papel da pintura – exíguo, para dizer o mínimo, segundo o crítico estrangeiro que viera ao meu atelier – tomei um fôlego súbito ao entrar no estúdio de Luiz Sôlha. Senti na garganta o impacto dessas pinturas tão ostensivamente figurativas, quase hiperrealistas, cuja força se acentua por um olhar pensativo: elas retramam todas as mediações implicadas na circulação da arte.
Sôlha que sempre teve o domínio virtuoso da figura, soube transformar essa facilidade em discurso plástico denso, muito pertinente num circuito que opera verdadeiros passes de mágica. Como no “telefone sem fio”, a proposta de um artista passa ao crítico, deste ao jornalista, depois à circulação pública, até que novas e variadas capas de sentido se colem à obra sob o olhar atônito de seu autor.
Não à toa, uma das primeiras telas desta série refere-se ao artigo que escrevi sobre o cinismo no circuito de arte brasileiro. Sob a impiedosa batuta da edição jornalística, somando uma enorme foto, criando novos títulos e subtítulos, vi meu texto ganhar um significado completamente diferente do pretendido, passando Nuno Ramos a ser, de exemplo positivo, palmatória do mundo, minimizando o impulso geral do escrito em direção à crítica do “cinismo” nas artes. Como artista que também senta do outro lado do balcão ao escrever no jornal, sinto-me cúmplice da operação de cultura que Sôlha realiza. Seu trabalho fecha um círculo iniciado com outras obras, postas na circulação social, mediadas pelas instâncias críticas, pelos meios de comunicação de massa, e finalmente reconvertidas em arte. Como artistas, fazemos também uma operação de arte de amplo espectro ao incidirmos ativamente na circulação. Através delas podemos lançar pequenas fagulhas subversivas – um pouco no espírito do que fazia Cildo Meireles com suas garrafas de Coca-Cola. Sinto-me às vezes como um quinta coluna na imprensa, o ladrão a quem confiaram o ouro: artista falando de arte direto para o público, procurando traduzir coisas nem sempre ditas. O trabalho de Sôlha realiza uma complexa operação de linguagem, jogando com os ditos e entre ditos, labirintos de níveis representacionais no campo da obra. Para isso cria a pintura dentro da pintura, recuperando imagens de outras obras e de fotos jornalísticas. Plasticamente, intercala espaços planares recessivos, personagens “reais” e “representados”, fazendo com que os autores habitem suas próprias obras, e colando nelas os indissociáveis rótulos críticos. Indica a infindável cadeia metafórica em que todos esses elementos imergem. Faz perderem-se num labirinto o artista, sua obra e o arsenal reflexivo que a ele se cola. A própria identidade do artista adeja por um intrincado jogo de espelhamentos.
Em tempos de comunicação de massa, nada mais pertinente que uma pintura vacinada contra a nadificação de uma imagem sem espessura histórica, crítica. Os tempos da imagem de Sôlha dão o ritmo lento de sua fruição, mostrando a rede de significantes que conduz à percepção da arte na contemporaneidade. Mais do que nunca, na cena social, o artista se vê em meio ao embate travado entre o poder de discurso e o discurso do poder.

CARLOS UCHÔA – Maio de 1994.