Luiz Sôlha
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"Doppelgaenger" - Aquele que se desdobra.
Um rapaz de dezoito anos, nascido e criado em São Paulo, capital, é muito diferente de um "caiçara" de mesma idade.
Outros costumes e mesmas vontades, mas enquanto um desce a "Rua Augusta" motorizado a caminho da "lanchonete",
o "surfista" vai prá Maresias. Nos anos setenta eu pintava camisetas e já tinha encomenda, para pintar este nome de praia. Mesmo sem estrada os caiçaras se aventuravam pelas ondas do litoral norte, saindo de "Monga-beach". Na oficina de pranchas de surf, eu pintava sobre o neoprene já "sheipado", que depois recebia a manta com resina transparente. Os carinhas tomavam pinga direto, e ouviam o rock pauleira no maior volume, se largavam no meio da fumaça, cheiro de resina forte, pinga, e ou outras coisas que eu não sabia, isopor moído, tinta esmalte em spray, o caos. Eu, alheio ao entorno, pincelando uma onda transparente quebrando em espuma brilhante, formando um túnel de água engolindo um surfista em sua prancha veloz, ajustando o azul do céu, finalizando com uma flôr de ibisco vermelha, letras com sombra para "Aloha"... agora, assinando e um abraço. Vou mergulhar. Anoitecia, chegava em casa, banho quente, roupa limpa, jantar, com pai e mãe, irmãs e rua, ou melhor, praça, a única.
Uns paulistanos que estudavam na Califórnia divulgaram aquele meu "trabalho", e vim parar numa confecção, na Rua Clodomiro Amazonas. Abdusido daquele barracão de pranchas e doidos, direto para uma grande e pioneira fábrica de jeans, no "departamento de arte". Nunca ví tanta diferença, como lá. Todos os tipos de doidos paulistanos convivendo diariamente desde o relógio de ponto, às sete e trinta, até os mais insalubres cantos desta imensa parafernália. Show de fim de ano, na fábrica era do Raul Seichas. Vê se pode? Eu não sabia nem o que era fumar cigarro...Os bacanas eram os bóizinhos que vendiam na pronta entrega da loja, para todo o Brasil. E paqueravam as menininhas o dia inteiro. Muita panca e calça cigarrete, bota de bico fino e camisa de gola grande, vendendo a onda daquele momento, o surf,..."um sarro"! As garotas todas já queriam ser modelo. Na Feira Têxtil no Anhembí, agora é Fashion weeck, no Ibirapuera, me encantei com aquela mulata linda, Marelene, que fazia humorístico na TV. Saudáveis (?) Dancing Days, desfiles da Santista, uvas caramelizadas, eu ia muito ao Rio de Janeiro e, Vale Tudo. Morei com os meus pais até os dezoito anos quando saí. Moro em São Paulo há trinta anos.
Aprender dói, e deixa marcas. "O sal na medida certa" é métrica de bom senso, identidade, justiça e bondade, para o todo. Nossa unidade vive no todo, sua parte material e sua parte imaterial, tendo por tarefa zelar duplamente pelo corpo e pelo espírito, como uma pessoa que se desdobra ( doppelgaenger).
Transformar-se para melhorar justifica e muito a trabalheira que dá. Pena que nosso lugar de origem se transforme, no Brasil, sempre para pior, detonam tudo. Eu fantasio as boas lembranças, que são afinal o que me faz batalhar para trazer do menino aquilo que, no adulto, se chama de companheirismo, arte maior nas escadarias do saber. Ao pensarmos numa situação do passado, corremos o risco de transformarmos o tempo, este senhor poderoso, em defunto inexpressivo. A saudade é diferente. Sentí-la pode nos trazer o benefício do qual precisamos, quando nos perdemos de nós mesmos. Ás vezes morremos um pouco por falta grave cometida, outras vezes por não encontrarmos saída. Mas como a imortalidade é a luz da vida, temos sempre a chance de ressurgir, para reformular, assim, o nosso íntimo.
Transmitir paz, conviver no planeta, em casa, no trabalho, nas "obrigações" que traduzimos em amor ao próximo, abrandar a fala, amornar os nossos gestos, e sorrir com aconchego, no sempre e para sempre.
Abraços, Luiz Sôlha.
"Fumaça de incenso"
A fumaça do incenso dança bem no contraluz, se transforma sempre subindo e desenhando o espaço, movimentos elegantes, tridimensionais em transparentes volumes, uma melodia interior que se agarra na memória e busca conexões com nossa história. E acaba por sair vitoriosa, pois consegue seu intento, no leve mais leve que qualquer pensamento. Observo sua liberdade que se confunde se eu soprar, depois retoma seu percurso rocambolesco, irrompe a preguiça de um raio de luz do sol-fim-de-manhã, e atrevida desfila ondulante e ascende nesta faixa oblícua e iluminada que vem desde o céu. O gato volta lentamente seu olhar para mim, estava desenhando ele dormindo. Todo o silêncio da casa e do dia se compõe com voz de mãe na cozinha, entre o alho e a faca, no seu suave cantarolez. A casa fôra construída pelos ingleses, junto com a ferrovia da companhia FRSA, e parte da varanda, sala e quartos, eram feitos em madeira, cozinha e banheiro em alvenaria. Lá fora quintal grande, muita planta, árvores e galinhas e ovos. O aroma deste incenso serve-nos da alquimia Européia-Mediterrânea, mista com o Brasil escravo, mas sem coentro ou dendê. Os peixes no limão ciciliano, o bacalhau puxado no alho e no azeite de oliva com vinagre de maçã, o patê de tomate gelado, uma receita secreta de vovó Itália mãe de minha mãe, o cuscus de camarão sempre saído da mesma fôrma, com furo no meio. Formas e sabores do mar, do campo e do rio. Rãs, aves do mato, peixe de rio e de mar, porco, vaca, galinha na canja e mariscos no molho de tomate apimentado e curtido na cebola, com muita salcinha. Que tempo as mães detinham nisso tudo. Era outro mundo realmente. Quantos perfumes diferentes naqueles dias, acompanhavam os feijões recém temperadinhos, depositados sobre larga fatia de pão fresquinho e salpicado de pimenta do reino, azeite e por fim cinco gôtas de vinagre de vinho. E a delícia estava feita e posta. Antes do fim do dia, as cigarras, anunciando a trégua da chuva para o dia seguinte, inspiradas por um nítido arco-íris, arqueado no horizonte, onde as linhas do trem se encontravam. Entretanto, a fumaça do incenso muda de curso e abre uma janela onde está debruçado o agora, e o aroma presente é de rosa-branca.
Na embalagem está escrito: paz, amor, harmonia e pureza.
Abraços, Luiz Sôlha.
Cinema, TV e trem. "Oque têm em comum?"
Televisão em casa só apareceu quando eu já completava 14 anos. Antes disso eu crescia com a molecada toda, nas rodas de "jogo de taco", em beira de rio que desembocava na praia, o qual subíamos a remo até a cachoeira, sem nossos pais saberem. Diversão não faltava. Serra do Mar bem pertinho da gente, dava prá subir bem alto desde aqui, quase do portão de casa em frente a linha do trem. Já passou o das dez? Pergunta rotineira entre os vizinhos que habituaram-se com o ruído dos trens. Coisa boa: dia de comprar roupas e proventos em Santos, dia de passear de trem. De estação em estação, sinais e manobras, cruzando outro trem em sentido contrário. Vento na cara sobre a ponte alta, lá embaixo o rio barrento na divisa com São Vicente. Emoção de criança ilumina o rosto do adulto e irradia calor no vagão inteiro. Horas cheias de paisagens, na rota de ferro, paralela com o mar à direita e com a Serra do Mar à esquerda. Na volta é tudo ao contrário. E ver o pai na estação, ao chegarmos, em seu quepe de aba brilhante, com distintivo da EFFSorocabana, moço bonito, de uniforme e cara séria. Ao nos ver esboça um canto de sorriso, sem mostrar os dentes, cheio de confiança natural, perito nos manejos de telegrafia, código morse, etc. Chegar em casa era cachorro prum lado, gato prá outro, em números e nomes, cada qual com seu porte e personalidade. Só eram iguais numa coisa: eram todos viralatas, e dos melhores. Cidade pequena de beira de praia, no verão vinham pessoas de São Paulo ou de Sorocaba, e outros interiores. Tudo gente boa, divertida e que trazia costumes diferentes dos "nativos" desta praia. Verão saía e a cidade sucumbia ao seu tédio e sua rotina de escola, funções de casa, obrigações e crescer, e crescer. Mas no Natal a turma já estava bronzeada novamente, a base da coca-cola com óleo de cozinha e sei lá mais o que. Aquele sol era bom naqueles tempos e nos esbaldávamos nele o dia inteiro. À noite meu pai era o projecionista dos filmes antigos, já naquela época, que assistíamos no único cinema da cidade: "Cine Teatro Bandeirantes". Ficava na praça principal cuja rua era de areia da praia, com grama no canteiro central, onde as moças se sentavam em bancos com estampas das casas de comércio locais. Tipo: Casa de carnes e açougue Rosas". Dentro do cinema, era grande, o telão com pintura de polvos e lulas, camarões e conchas, anunciando também lojas e armarinhos da cidade. Era reduzido o comércio, cabiam todos nesta cortina de boca de cena pintada com o fundo do mar. Viajei nestes seres marinhos durante a infância inteira até que a cortina se abrisse e o "mundo" aparecesse à minha frente, às vezes em preto e branco mesmo, muitas cadeiras de madeira rangendo a nossa volta na alegria de estar ali. Assistia a filmes que minha mãe escolhia. Melodramas de Hollywood, grandes nomes do cinema e muito sonho na cabeça. Víamos os rostos enormes de Bete Davis e Joan Crawford, Sofia Loren e John Wayne. Que Brasil era aquele? Começa a diminuir a frequência, quando a prefeitura instala uma torre de retransmissão de TV, sobre a serra. Aí a vida da cidade mudou, porque já não se podia mais ir sempre ao cinema. A pornochanchada brasileira impregnou os cinemas, na época num apelo dramático pelo público, que preferia ver TV, em casa. Ver o "homem pisar na Lua", ou programas de auditório, ou "Perdidos no espaço", sob o patrocínio de OVO MALTINE, "Jovem Guarda", "Família Trapo", e outros que até então eram transmitidos pelo rádio. Este era de válvulas, ainda, lá em casa, nesta época. Lindos aparelhos de madeira e que "decoravam" as salas das casas. Tudo isso no período da ditadura militar. As novelas do Dias Gomes eram demais de boas, no horário das dez. Depois veio "O Bem Amado" inaugurando a Tv em cores , idos de setenta. Meu primo (João Paulo Adour) fazia o filho do prefeito, "Cecéu Paraguassú", e sua irmã era Sandra Bréa. O empertigado prefeito "Odorico Paraguassú", transformado depois em minissérie, era do Paulo Gracindo, que foi quem levou a cantora Elis Regina aos palcos mais requintados da boemia carioca, nos anos sessenta. Acabou assim o cinema, lá naquelas bandas de Mongaguá. Mas também aí eu já tinha outros planos em mente, o que certamente não incluía permanecer por lá. Estou completando trinta anos de São Paulo, neste ano de 2007. Cheguei debaixo de "chicotada e bomba de gás lacrimogêneo ", na Praça das Bandeiras, em março de 1977, e o povo, junto com os estudantes, corria da cavalaria em atropelo naquele Vale do Anhangabaú, e dos prédios jogava papel picado gritando: Brasil! Brasil!. Minha primeira exposição individual, foi o Pitanga quem realizou.
De lá para cá, perdi cabelo e ganhei uma vida cheia de aprendizado... Viva o Rei!. O Rei está Nú!
Abraços, Luiz Sôlha.