"Pintura Transcendental"
Luiz Sôlha é desenhista. Lança mão de complexa técnica de pintura para figurar minuciosamente pela tinta as idéias projetadas.
O artista trabalha ao mesmo tempo em tres ou quatro telas, cada qual com sua palheta, seu pano para limpar pincel e seus tubos de tinta.
Como numa batalha com muitas frontes, as dificuldades comuns entre os estágios de execução das obras são enfrentadas em paralelo, conforme a natureza cromática dos problemas.
Porém na mesa do ateliê, um mapa dos objetivos perseguidos coordena a tática pictórica. Nela Sôlha arranja as fotografias que lhe servem de referência, executando seus quadros por livre análise visual comparativa com elas, pois o artista pinta diretamente sobre o suporte branco, sem qualquer esquema gráfico preparatório. O ponto da finalização do trabalho é dado pelo sucesso em semelhar as imagens modelares com uma pintura lisa, construída demoradamente por velaturas sobrepostas.
A prática cotidiana do pintar tornou-se objeto de reflexão na séria aqui reunida. As telas figuram montes de tinta à óleo espremidos de tubos e são coloridas com a mesma coisa figurada. A matéria-prima da pintura é tratada como modelo escultórico, registrado em imagens bidimensionais da câmara fotográfica.
As composições resultantes nos quadros partem das fotos, enfatizando a óleo o brilho sensual da viscosidade untuosa da cor em pasta.
Cada quadro se intitula conforme o pigmento nomeado no rótulo da embalagem comercial das tintas pintadas: "Alizarin Crinson and White, Ivory Black, Cadmium-Barium Red Deep, Dioxazine Purple, Naples Yellow, Cerulean Blue".
As cores protagonistas mostran-se volumosas contrastando com o fundo abstrato e plano das manchas de palhetas. A textura de tintas já usadas e os rastros de pincel sobre os borrões secos aparecem em segundo plano. Como em cena trágica, vemos o personagem principal exibido momentos antes de um pintor imaginário esmagá-lo com seus instrumentos: reduzindo a lustrosa cor recém-espremida do tubo a empaste plano e gasto conforme a utilize o artista fictício, finalmente se igualará figura e fundo. Prevalece, porém, imagem do instante fugidio em que o óleo ainda é apenas o rico elemento em estado bruto, a pura possibilidade primitiva da pintura.
Felipe Chaimovich, novembro de 2004.